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Design pode impactar em milhões de R$ sem pesquisa: case real

Era um domingo à noite comum. Eu tinha acabado de chegar em casa depois de comer um pastel numa pastelaria de bairro. Nada de projeto formal, nenhum plano estratégico, nenhuma pesquisa em andamento. Só um incômodo provocado por…

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Era um domingo à noite comum. Eu tinha acabado de chegar em casa depois de comer um pastel numa pastelaria de bairro. Nada de projeto formal, nenhum plano estratégico, nenhuma pesquisa em andamento. Só um incômodo provocado por algo banal: o comprovante de pagamento da maquininha de cartão.

Ao olhar aquele papelzinho com atenção, ficou evidente o quanto ele era mal resolvido. Informação redundante, hierarquia confusa, tipografia pouco legível, campos importantes soterrados por dados que quase ninguém usa. Digitalizei o comprovante e comecei a redesenhá-lo. A motivação inicial era didática, para usar em sala de aula como exemplo de design da informação aplicado a um artefato cotidiano. Mas havia uma segunda intenção, mais direta: mostrar que aquilo podia e devia ser feito pela líder de mercado, a Cielo.

O redesenho não era estético no sentido superficial. Ele reorganizava a informação, criava hierarquia clara, respeitava o fluxo cognitivo de quem realmente usa aquele papel. E, sobretudo, tinha coragem de retirar o que não era necessário. Menos linhas, menos repetições, menos ruído. Quando publiquei o material, a reação foi imediata. Viralizou no LinkedIn, Facebook, Twitter e Pinterest. Parte das pessoas enxergou imediatamente o ganho de clareza. Outra parte reagiu com desconfiança técnica, dizendo que as impressoras térmicas não dariam conta daquele tipo de organização e impressão gráfica.

O argumento parecia técnico, mas escondia um problema cultural: a aceitação passiva de limitações herdadas. As impressoras térmicas ainda operavam com uma lógica próxima das antigas matriciais, e isso era tratado como um limite intransponível. Ainda assim, o mercado se moveu. A decidiu desenvolver uma impressora capaz de imprimir comprovantes mais inteligentes. Depois vieram outras, como a PagSeguro, Getnet, Rede, Zignet e o Banrisul.

O efeito mais interessante, porém, não foi tecnológico. Foi sistêmico. Ao reorganizar visualmente a informação e eliminar excessos, o redesign reduziu drasticamente o comprimento médio dos comprovantes. Isso significou economia de milhões de reais em bobinas térmicas ao longo do tempo. Menos papel impresso significou menos árvores derrubadas, menos consumo de insumos químicos, menos emissão de carbono na cadeia de produção e transporte.

Houve impacto também na logística invisível do sistema. Menos volume de papel reduziu viagens de motoboy para reposição de bobinas, diminuiu espaço de armazenamento em centros de distribuição e estabelecimentos comerciais, e reduziu o tempo de impressão a cada transação. Milhões de pequenos segundos economizados, multiplicados por bilhões de transações, viraram eficiência real. Tudo isso não veio de um novo material, de uma nova máquina revolucionária ou de um algoritmo sofisticado, mas da inteligência de organização visual e da coragem de retirar o que não fazia falta.

Esse caso ajuda a expor um problema recorrente na forma como o design é ensinado. Estruturas como o duplo diamante, do jeito que são repetidas, fazem muitos designers se sentirem culpados por pensar antes de pesquisar formalmente. Como se qualquer decisão sem uma longa fase de descoberta fosse irresponsável. Isso transforma o design em ritual burocrático e inibe intervenções simples, diretas e profundamente eficazes.

Repertório, sensibilidade e capacidade de leitura de sistemas também são formas legítimas de conhecimento. Nem toda mudança relevante começa com pesquisa extensa. Às vezes, ela começa com atenção. Com a disposição de olhar para algo trivial e perguntar por que aquilo ainda funciona tão mal.

Esse redesenho mostrou que pequenas decisões, quando bem orientadas, podem gerar impactos econômicos, ambientais e operacionais enormes. Não por excesso de método, mas por clareza. Não por adicionar coisas, mas por ter coragem de remover o desnecessário.

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