Byung-Chul Han é um filósofo coreano que vive na Alemanha. Ele escreve livros curtos sobre uma pergunta que parece boba, mas não é: por que o mundo de hoje parece tão cheio e tão vazio ao mesmo tempo? Num desses livros, chamado "Não-coisas", ele propõe uma separação.
De um lado estão as coisas. Uma cadeira, um livro de papel, uma chave, uma ferramenta que era do seu avô. Coisas ocupam espaço. Pesam. Quebram. Ficam com marcas de uso. Você aprende a lidar com elas com o tempo, e elas resistem a você. Uma cadeira mal feita machuca as costas e não tem como fingir o contrário.
Do outro lado estão as não-coisas. Informações, arquivos, imagens que circulam. Elas não pesam. Não envelhecem. Podem ser copiadas mil vezes sem perder nada. E não resistem: você passa por elas rápido, sem esforço.
Han diz que estamos trocando as coisas pelas não-coisas. E que isso muda o que a gente entende por saber alguma coisa. Ter muita informação não é a mesma coisa que ter experiência. Experiência exige tempo parado. Informação exige só rolar a tela.
O diagrama do design
Existe um desenho muito famoso na área de design. Ele se chama duplo diamante. São dois losangos lado a lado. O primeiro representa entender o problema. O segundo representa resolver o problema. Cada losango abre e depois fecha, como quem espalha ideias e depois escolhe uma. É um desenho bonito e fácil de entender. Talvez fácil demais.
O duplo diamante virou o cartão de visita da profissão. Ele aparece em todo curso, em toda apresentação, em todo slide. As pessoas o compartilham, o imprimem, o colocam na parede.
E aqui vale usar a ideia de Han. O diagrama não pesa. Não envelhece. É copiado sem parar. Não oferece resistência nenhuma: qualquer pessoa entende em dez segundos. Ele tem quase todas as características de uma não-coisa.
A parte estranha
Tem uma reviravolta nessa história.
Durante muito tempo, designers ouviram uma acusação: que design é só aparência, só a casca bonita das coisas. Que designer escolhe cor e fonte e mais nada.
A resposta a essa acusação foi mostrar que existe um processo por trás. Pesquisa, teste, decisão. Trabalho de verdade.
Só que a forma escolhida para mostrar isso foi um desenho. Um diagrama limpo, simétrico, agradável de olhar.
Ou seja: a profissão respondeu à acusação de ser só aparência com mais uma aparência. E essa aparência virou o crachá. Passou a bastar mostrar o diagrama para provar que existe profundidade.
O que fica de fora
Projeto de verdade é bagunçado.
Tem semana em que a pesquisa não descobre nada. Tem decisão tomada porque o dinheiro acabou, não porque foi a melhor escolha. Tem resposta certa que chega tarde demais para servir. Tem coisa refeita três vezes.
Nada disso cabe nos dois losangos. O desenho só tem espaço para uma história arrumada, em que se descobre uma coisa e depois se resolve. O resto some.
Han faria a observação seguinte: isso não é uma história, é uma informação com formato de história. Uma história de verdade tem impasse, demora, coisa que dá errado. Uma informação é só o resumo limpo do final.
O desenho faz estrago
Seria cômodo dizer que o diagrama é só uma simplificação boba, sem consequência. Não é.
Ele ensina que problema é uma coisa que se abre e se fecha, e que basta seguir a sequência para chegar em algum lugar. Quem aprende assim vai para um projeto real esperando o formato do desenho. Quando o projeto não se comporta, a conclusão é que o projeto está errado, não o desenho.
Ele também decide o que conta como trabalho. Se não cabe nos losangos, não é apresentado, não é pago, não é reconhecido. A parte confusa do ofício, que é onde ele de fato acontece, fica sem nome.
E ele trocou uma prova difícil por uma fácil. Provar que design tem profundidade dava trabalho: exigia mostrar caso, erro, decisão defendida na frente de quem discorda. Com o diagrama, basta exibi-lo. A profissão aceitou um crachá no lugar de uma prática.
Coisas resistem. Não-coisas, não. Um diagrama que nunca oferece resistência acabou ensinando uma geração a não procurá-la.
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