Produto e UX

Empatia, colaboração e experimentação não são privilégio do Design Thinking

Corrigindo um mito comum entre designers

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Existe uma afirmação que circula com naturalidade em treinamentos, apresentações e conferências de inovação: a de que o design thinking se distingue de outras abordagens por combinar três princípios: empatia, colaboração e experimentação. A tríade é apresentada quase como uma marca registrada. E é exatamente aí que começa o problema.

Não porque os princípios sejam ruins. Mas porque reivindicá-los como exclusivos criou uma promessa que o design thinking (DT) não consegue cumprir. E essa promessa, quando falha, cobra um preço alto.


A tríade não pertence ao design thinking

A crítica aqui não é a de que cada um desses princípios já existia separadamente antes do DT. Isso seria trivial. A crítica é mais precisa: a combinação dos três princípios, operando juntos como estrutura de uma metodologia, já existia em outras abordagens que chegaram lá por caminhos completamente independentes.

O Scrum opera com os três princípios imultaneamente:

  1. centralidade do usuário (empatia),

  2. time multidisciplinar auto-organizado (colaboração) e

  3. sprints curtos de aprendizado (experimentação).

O lean startup faz o mesmo: começa com a

  1. compreensão do problema do cliente,

  2. envolve times cruzados de produto e negócio, e

  3. avança por ciclos deliberados de construção e teste.

A pesquisa-ação de Kurt Lewin, desenvolvida nos anos 1940, já dissolvia a separação entre pesquisador e pesquisado, avançava por ciclos de ação e reflexão, e era estruturalmente coletiva.

Nenhuma dessas metodologias se reivindica como design. E todas chegaram aos mesmos três princípios.

Isso revela que empatia, colaboração e experimentação juntas não são uma invenção, são uma consequência.

Pare e use sua cachola:

  1. Se você quer resolver um problema real, precisa entender quem tem o problema.

  2. Se o problema é complexo, ninguém resolve sozinho.

  3. Se você não tem certeza da solução, precisa testar.

Qualquer metodologia que parta dessas premissas chega aos mesmos princípios, independente do nome que carrega. E isso, my friend, é mais velho que andar para a frente.


O carrinho de supermercado e os limites do método

O design thinking brilhou. Isso precisa ser dito com clareza para que a crítica faça sentido.

O caso do carrinho de supermercado redesenhado pela IDEO é genuinamente bom.

  • Um objeto,

  • um usuário,

  • uma tarefa,

  • um conjunto relativamente claro de necessidades.

Como o carrinho pode ser mais fácil de manobrar? Como ele pode ser mais seguro para crianças? Como ele pode ser mais fácil de limpar? Esses são problemas onde a empatia com um usuário central, a colaboração de um time multidisciplinar e a prototipagem rápida funcionam muito bem. O resultado é visível, testável e não ameaça os interesses de ninguém.

Mas o que acontece quando o problema não é o carrinho, e sim o serviço de compras no supermercado como um todo?

Agora você não tem um usuário. Você tem:

  1. o cliente que quer achar os produtos rápido,

  2. o fornecedor que paga por posição de gôndola,

  3. o gerente de categoria que tem metas de margem,

  4. o repositor que tem uma lógica própria de organização,

  5. o caixa que lida com filas e reclamações,

  6. a área de marketing que quer exposição de marca, e

  7. a diretoria que quer reduzir custo operacional.

Cada um desses stakeholders tem uma jornada, cada jornada tem necessidades que em vários pontos conflitam com as dos outros, e qualquer solução que beneficia um tende a prejudicar outro.

É aqui que o design thinking começa a afundar.

A areia movediça da complexidade real

O problema não é que o DT ignore que existem múltiplos stakeholders. Ele reconhece isso. O problema é que a estrutura do método não foi construída para lidar com o que vem depois desse reconhecimento: o conflito.

Complexidade real não é só complicação técnica. Não é só ter muitas peças para mapear. Complexidade real é conflito de interesses legítimos. É poder distribuído de forma desigual. É cultura organizacional que resiste à mudança não por ignorância, mas por razões concretas de sobrevivência. É trade-offs onde não existe uma resposta certa, apenas escolhas com consequências diferentes para pessoas diferentes.

O design thinking foi desenhado para um ambiente onde

  • o problema pode ser enquadrado,

  • o usuário pode ser identificado e

  • a solução pode ser testada com relativa clareza.

Quando o ambiente é esse, ele funciona. Quando o ambiente é uma constelação de jornadas conflitantes, sistemas legados, relações de poder e interesses que não se reconciliam numa boa ideia, o método oferece ferramentas que são boas demais para a tarefa e insuficientes para o problema.

Um mapa de jornada não resolve um conflito entre o que o cliente quer e o que o fornecedor financia. Um protótipo não negocia poder entre áreas que competem por orçamento. Uma sessão de cocriação não elimina o fato de que certas decisões têm ganhadores e perdedores, e que os perdedores vão resistir independente de quantos post-its foram usados no processo.


O preço da promessa exagerada

Quando o design thinking reivindica a tríade (empatia, colaboração e experimentação) como sua e depois se apresenta como solução para problemas complexos, ele cria uma expectativa que não consegue cumprir. E quando falha (e falha de forma previsível nesses contextos) o prejuízo vem em dobro:

  1. Primeiro, as organizações que investiram no método e não viram resultado concreto passam a desconfiar não só do DT, mas dos próprios princípios de empatia, colaboração e experimentação. A metodologia queima os valores junto com ela mesma (macacos me mordam!).

  2. Segundo, o fracasso fica invisível por um tempo longo, porque o DT é muito bom em gerar artefatos que parecem progresso: mapas bonitos, personas detalhadas, protótipos fotogênicos, workshops com energia alta. Esses artefatos criam a ilusão de avanço enquanto o problema real (o conflito, o trade-off, a decisão política) permanece intocado.


O que o design thinking é, de fato

O design thinking é uma abordagem eficaz para problemas com:

  1. um stakeholder central,

  2. uma tarefa delimitada e

  3. ausência de conflitos estruturais de interesse.

Nesses contextos, a combinação de empatia, colaboração e experimentação que ele organiza funciona muito bem e a linguagem acessível que ele criou para esses princípios tem valor real.

Mas ele não é uma metodologia para complexidade. Não foi construído para isso, não tem as ferramentas para isso e não deveria ser vendido como isso.

O carrinho de supermercado foi um projeto honesto. A promessa de transformar o serviço de compras, a cultura organizacional do varejo ou a relação entre fornecedores e distribuidores usando a mesma caixa de ferramentas não é. É uma promessa que afunda em areia movediça e que arrasta consigo a credibilidade dos princípios que deveriam ser mais duradouros do que qualquer metodologia.

Então, design thinking para projetar carrinhos de supermercado e tarefas únicas, ok. Para serviços, pense duas vezes.

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