Eu venho trabalhando há 30 anos lidando com clientes de muitos tipos, alguns bons outros ruins. Faz parte do jogo.
Nesse meio tempo eu sempre tive o hábito de não apenas fazer meu trabalho como designer mas também de explicá-lo.
No tempo em que eu era designer gráfico eu me recusava a comprar livros de “referências” pois eu não queria correr o risco de copiar o trabalho dos outros (diferente de uma “celebridade” do mundo do design de serviço brasileiro, rsrs). Ao invés de referências, eu consumia teoria do design. Queria não apenas produzir, mas poder justificar minhas escolhas. Explicar o porquê de ter usado aquela fonte, aquela cor, aquela composição, etc.
Até recentemente eu nunca achei que isso fosse algo tão importante. Meio síndrome do impostor. Algumas pessoas até diziam que meu trabalho era diferenciado, que tudo que eu fazia era embasado, mas eu continuava achando que explicar o meu trabalho não era tão especial.
Até ontem.
Faz uma semana que o ar condicionado em um dos quartos da nossa casa parou de funcionar. Foi a maldição da LG (não comprem essa marca exceto para lavadoras!). A serpentina por onde passa o gás que gela o ar está furada e deixou escapar o gás.
Precisei falar com a assistência técnica. Eles se limitaram a dizer que ia custar 1700 reais e aceitavam pix ou cartão.
Falei com outro técnico que colocou mil dificuldades pra vir ver o defeito.
Outro técnico disse que faria o conserto por 2400 reais e também não era transparente sobre como o serviço seria feito nem se iria prestar.
Daí encontrei o Bruno na Internet.
Ele demorou a responder, mas quando o fez, foi uma aula.
Ele me explicou por que serpentinas vazam, que esse problema é super comum em ar condicionado LG e Samsung, que pode ser resolvido com solda não necessariamente com troca de serpentina, mas a baixa qualidade do metal usado pela LG iria me dar dor de cabeça novamente no futuro com novos vazamentos de gás, me mostrou os aparelhos de classe mundial Daikin e Fujitsu, me falou de uma nova marca super resistente e com preço muito bom (TCL), enfim, no final eu só pensava: cara, que atendimento, que explicação, que aula, que segurança.
Foi aí que eu senti na pele o que eu faço pelos outros há 30 anos: eu passo segurança para os clientes pois junto prática e teoria na realização do meu trabalho.
Uma das condições que eu coloquei para ser professor nos EUA na pandemia foi que a universidade deveria comprar todos os livros que eu precisasse. Eles aceitaram. Fiz isso pois para mim teoria é a base do meu trabalho, somada com a experiência.
Outro ponto: quem é meu aluno sabe que eu indico livros como quem bebe água. Eles devem até desconfiar que eu ganhe alguma comissão das editoras devido à quantidade de livros que eu recomendo sobre tudo que é assunto. Digo o livro, o capítulo, a página, e o que você vai aprender ali. Dizem que tenho memória fotográfica pra livros devido à facilidade em lembrar até da posição em que determinada informação está na página.
Eu tenho livros que comprei por causa de uma única frase, um único ensinamento.
Livros também já me ajudaram a conseguir um emprego.
Tenho livros que também já me deram muito dinheiro. Um único livro me permitiu comprar um Honda Fit novo praticamente à vista. Um livro.
Já tive livros que só li depois dos meus alunos lerem primeiro e virem me dizer “professor, esse livro é fantástico”. E é mesmo.
Já tive livros que li inteiro pra descobrir que ele disse em 200 páginas o que dá pra dizer em uma frase só. Ou seja, pura encheção de linguiça.
E tenho uns cinco livros que junto com a Tradução das Escrituras Sagradas fazem parte dos meus livros preferidos.
Consegue ver a paixão que eu tenho por ensinar?
A mesma paixão do Bruno, do ar condicionado.
Então da próxima vez que alguém te explicar o porquê das coisas (e não apenas o quê), preste atenção. Esse alguém não está tentando parecer inteligente. Está tentando te dar segurança. Está compartilhando com você o que levou anos (às vezes décadas) para aprender, testar e validar.
Teoria sem prática é discurso vazio. Prática sem teoria é sorte. Mas quando as duas andam juntas, o resultado é aquilo que você sente no peito e não consegue explicar direito: confiança.
Foi isso que o Bruno me deu ontem falando de serpentina e gás refrigerante. É isso que eu tento dar aos meus clientes e alunos há 30 anos falando de design, livros e fundamentos.
Se você também sente essa vontade de não apenas fazer, mas de entender e explicar o que faz, cultive isso. Leia. Estude. Compre o livro. Leia o capítulo. Vá até a página. Porque no dia em que alguém olhar pra você com aquele olhar de “cara, que segurança”, você vai entender exatamente o que eu senti ontem.
E vai ser maravilhoso.
(e sim, você acabou de ver como eu dou uma aula, é desse jeito que eu ensino)
