Pesquisa

Por que a briga entre pesquisa qualitativa e quantitativa é perda de tempo

No fundo mostra que a pessoa não conhece os dois tipos antes de criticar

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Vou compartilhar uma história real que ilustra por que a disputa entre pesquisa quantitativa e qualitativa, muitas vezes, não faz sentido.

Nossa equipe foi contratada por uma faculdade brasileira para investigar por que ela estava perdendo alunos. Ao iniciar o projeto, nosso primeiro desafio era identificar o motivo principal dessa evasão. Tínhamos uma lista com 63 possíveis causas, compilada ao longo de vários anos por meio de pesquisas qualitativas. Sim, 63.

Esses fatores iam desde a qualidade do ensino e dos professores, passando pelo ambiente físico, a existência de laboratórios e a reputação da instituição, até questões como a certificação pelo MEC. Eram, ao todo, 63 variáveis que poderiam influenciar a decisão de um aluno de escolher uma faculdade em detrimento de outra.

Imagine apresentar uma lista com 63 motivos ao reitor de uma universidade e dizer: "O problema é um destes". A resposta seria, previsivelmente: "Isso não me ajuda a tomar uma decisão". A informação era vasta, mas pouco acionável.

Foi então que recorremos à pesquisa quantitativa. Primeiro, com base em desk research e revisão da literatura acadêmica, reduzimos o número de hipóteses de 63 para um grupo mais focado de 10 fatores principais. Em seguida, aplicamos uma técnica estatística chamada regressão logística binária. Para isso, criamos um experimento no qual os alunos foram divididos em dois grupos: os que permaneceram na faculdade (nosso cliente) e os que se transferiram para outra instituição. Entrevistadores experientes foram a campo com formulários estruturados para abordar ambos os grupos.

Ao rodar a análise de regressão, o resultado foi categórico: o fator determinante, com maior poder de variação, era a localização.

Nesse ponto, poderíamos concluir que a pesquisa quantitativa é superior, pois reduziu 63 possibilidades a apenas uma. Certo? Errado. A análise nos disse o quê, mas não o porquê. Ela apontou a localização como o problema, mas não explicou a razão de sua importância.

Para descobrir o "porquê", voltamos à pesquisa qualitativa. Fomos investigar o que tornava a localização um aspecto tão crítico naquela cidade. Descobrimos que o município era cortado ao meio por uma linha de trem. Em cidades pequenas, quando o trem passa, a vida para: o trânsito é interrompido e ninguém consegue cruzar de um lado para o outro. Esse transtorno diário influenciava o comportamento dos moradores, que evitavam ao máximo ter que se deslocar para o lado oposto da linha férrea.

A faculdade do nosso cliente, que existia há décadas, percebeu que a evasão começou quando uma concorrente inaugurou um novo campus. Ao investigarmos, vimos que o campus dessa concorrente foi construído exatamente do outro lado da linha do trem. Se a faculdade tradicional estava no lado "direito", a nova se instalou no lado "esquerdo". Naturalmente, os estudantes que viviam no lado esquerdo começaram a se matricular na nova instituição, para evitar o transtorno diário da travessia.

A solução se tornou óbvia: para competir de forma eficaz, a universidade precisaria ter um campus em cada lado da linha do trem.

O que isso nos ensina sobre pesquisa? A moral da história é que a briga entre pesquisa qualitativa e quantitativa não faz sentido, pois, como o caso demonstra, ambas foram indispensáveis.

  • Sem a pesquisa qualitativa inicial, não teríamos as hipóteses sobre os fatores que influenciam a escolha de uma faculdade.

  • Sem a pesquisa quantitativa, não teríamos conseguido reduzir um universo de 63 razões a um único fator gerenciável.

  • E, novamente, sem a pesquisa qualitativa, não teríamos conseguido interpretar o resultado numérico e entender o verdadeiro contexto por trás do dado.

A lição é clara: em vez de se prender a rótulos como "positivista" ou "construtivista", seja pragmático. Utilize a metodologia de pesquisa mais adequada para o desafio em questão, no momento certo.

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