Esse artigo compara duas formas muito diferentes de construir um site para divulgar um curso, antes e depois da IA e discute o impacto disso nas profissões.
Imagine que você precisa criar um site para vender um curso. Você sabe o que quer ensinar, sabe para quem é, tem uma ideia do preço. Só falta a página de vendas.
Como era antes da IA
Você começa escrevendo o texto. Não tem certeza se está bom, então mostra para algumas pessoas. Mas mostra por WhatsApp, em formato de mensagem, porque não tem como montar a página sozinho. O retorno é vago. As pessoas dizem “parece bom”, mas ninguém consegue avaliar uma proposta de curso lendo um bloco de texto no celular.
Você não pode fazer o site sem fechar o conteúdo, porque uma página profissional custa uns R$ 3.000 e você não quer pagar duas vezes. Então tenta fechar o texto primeiro, mesmo sem ter como testá-lo de verdade. Contrata um programador. Ele pergunta se você tem layout. Você não tem. Ele sugere um template pronto. Você acha genérico. Contrata um designer. Mais R$ 2.000. O designer entrega o visual, mas não faz a parte técnica. Você volta pro programador.
Quatro semanas viram três meses. Ajustes geram custos extras. Quando o site finalmente fica pronto, você manda o link para conhecidos. Eles dizem que não entenderam o que o curso oferece.
O problema não era o site. Era o texto. Mas você só descobriu isso depois de meses e mais de R$ 7.000 investidos na embalagem.
Se você tivesse seguido o caminho “correto” do design, o custo seria ainda maior. Antes de escrever qualquer coisa, deveria ter feito pesquisa com usuários. Uma rodada de entrevistas com oito a dez pessoas, mesmo informal, leva semanas para recrutar, agendar e conduzir. Se quiser fazer direito, paga incentivo para os participantes (R$ 50 a R$ 150 por pessoa). Contrata um pesquisador ou uma consultoria para conduzir. Uma rodada modesta de pesquisa de UX parte de R$ 5.000 e facilmente passa de R$ 15.000. E o resultado é um relatório com recomendações que ainda precisam virar um site, o que nos coloca de volta na mesma esteira de designer, programador, ajustes e espera.
E o pior acontece no final: o curso que você planejou demorou tanto para ser lançado que agora está desatualizado. Ninguém errou. O designer cobrou o justo, o programador avisou sobre prazos, as pessoas deram feedback honesto. O problema estava na estrutura. Tudo funcionava em fila: primeiro o conteúdo, depois o visual, depois o código, depois o teste, depois a correção. Cada etapa dependia da anterior e cada correção reiniciava a fila.
Usando IA
Agora pense no mesmo cenário com IA.
O começo é igual: você tem uma ideia de curso e precisa de uma página. Mas em vez de escrever o texto isoladamente, você descreve o curso numa conversa com uma ferramenta como Claude. Diz o que ensina, para quem é, quanto custa. A IA ajuda a organizar, aponta furos, sugere estrutura. Em minutos, não em semanas.
Se o texto não convence nem na conversa, não vai convencer numa página bonita. Você está testando a mensagem antes de gastar qualquer coisa. Aquela validação que no cenário anterior só aconteceu depois de R$ 7.000 (ou R$ 20.000 se incluir pesquisa), aqui acontece no primeiro dia, de graça.
Com o texto razoável, você pede para a IA gerar a página. Ela entrega um site funcional, com o conteúdo real, que você pode abrir no navegador e mostrar para alguém. Se não gosta das cores, muda. Se quer trocar a ordem, troca. Cada ajuste leva segundos. Sem fila, sem orçamento extra.
Você manda o link para dez pessoas. Cinco dizem que não entenderam. Mesmo problema de antes. Mas agora a correção leva uma hora, não quatro semanas. Se precisar refazer cinco vezes, refaz. O custo é tempo, não dinheiro.
O custo total é o de uma assinatura mensal. O ciclo inteiro pode acontecer em um a três dias. E se o mercado mudar, você atualiza sozinho.
Isso muda três coisas fundamentais.
Mudanças no jeito de se fazer design
A primeira é que o processo clássico de design perde sentido. O modelo mais conhecido de UX design (o duplo diamante) parte do princípio de que construir é caro. Por isso você pesquisa antes: para não desperdiçar dinheiro construindo a coisa errada. Gasta semanas em entrevistas, análise, definição de problema, tudo para reduzir o risco antes de começar. Mas quando construir não custa quase nada, a lógica se inverte. Você não precisa de três semanas de pesquisa se pode ter uma versão real em três horas e testar com gente de verdade. A pesquisa não desaparece, ela muda de lugar. Em vez de vir antes, vem depois. Em vez de tentar prever o que vai funcionar, você testa o que já existe. É mais rápido, mais barato e mais honesto, porque as pessoas reagem diferente quando veem algo que parece pronto versus um rascunho.
A segunda é o impacto nos profissionais que vendiam execução. O programador do cenário cobrava R$ 500 para colocar o site no ar. Não porque isso vale R$ 500, mas porque o cliente não sabia fazer. O valor vinha de saber algo que o outro não sabe. Quando o cliente resolve sozinho com ajuda da IA, esse serviço desaparece. E não é só isso. A maior parte da receita de programadores e designers freelancer vinha de tarefas que são, na prática, tradução: pegar a ideia do cliente e transformar em algo visual ou funcional. Mudar um texto, trocar uma cor, reorganizar uma seção. Cada ajuste gerava um chamado e um custo. Agora o cliente faz direto.
A terceira é a mais importante.
Site ou serviço?
Tudo isso aconteceu no nível do ponto de contato. O site é um ponto de contato. A página é um objeto. A IA tornou essa camada barata. Mas o cenário que construímos nunca foi um problema de site. Foi um problema de serviço.
O curso ficou obsoleto antes de ser lançado. Isso não é problema de página. É problema de como o sistema inteiro estava montado. Não havia como testar a ideia rápido. Não havia como corrigir sem recomeçar. Não havia como detectar que o conteúdo estava errado antes de investir na embalagem. O serviço todo (da ideia do curso até a venda) estava montado para falhar devagar.
Se construir pontos de contato ficou quase de graça, o trabalho que realmente importa é outro: decidir quais pontos de contato criar, para quem, em que ordem, e o que precisa acontecer por trás de cada um deles. Isso é design de serviço.
O designer que usa IA para gerar uma página em uma hora está resolvendo uma tarefa. Mas se não pensou em como vai atrair gente para essa página, o que acontece depois que alguém compra, como vai melhorar o curso com base no que os alunos dizem, como lida com quem desiste, ele construiu uma vitrine bonita para uma loja que não tem estoque, nem caixa, nem atendimento.
A IA resolveu o problema de fazer. Não resolveu o problema de pensar o que fazer, para quem, e por quê. E esse é o trabalho do designer de serviço.
P.S.
Ficou curioso para saber qual é o site da história? É o site real do meu novo curso: Design de Serviço para PMs e PDs. Foi feito inteiro usando IA em algumas horas, usando apenas os créditos mensais.
